Entre 2023 e 2025, o mercado português de trespasses com arrendamento sofreu transformações profundas: aumento das rendas, maior escassez de imóveis licenciados, exigências regulatórias mais rigorosas e uma postura mais seletiva por parte dos senhorios. Em 2026, essas tendências convergem para um cenário mais exigente, no qual o arrendamento deixa de ser um elemento acessório e passa a ser o principal vetor de risco, valor e viabilidade da operação.
Num contexto em que os ciclos de licenciamento continuam lentos, o custo do capital permanece elevado e a pressão sobre margens operacionais se intensifica, o trespasse com arrendamento só é vantajoso quando existe uma análise metódica e multidisciplinar da posição contratual, das licenças, das condições operacionais e da estrutura fiscal da transação.
Em 2026, o investidor não está apenas a comprar um estabelecimento: está a adquirir acesso a um espaço, a um enquadramento jurídico e a um conjunto de obrigações capazes de redefinir o retorno económico do negócio.
Em mercados urbanos como Lisboa, Porto, Braga e Faro, o valor comercial de um ponto depende menos da marca e mais da localização. Na restauração, retalho e serviços, estima-se que a localização e o custo de ocupação expliquem mais de metade do valor económico esperado de um trespasse. Esse peso tende a aumentar em 2026 por cinco razões estruturais:
Processos de licenciamento continuam morosos e, em algumas atividades, exigem adaptações físicas caras. Um espaço já licenciado reduz tempo de entrada e CAPEX, tornando-se um ativo estratégico.
Com custos laborais e energéticos em alta, o peso da renda no EBITDA tornou-se mais acentuado. Uma atualização automática de 10% a 20% pode destruir a margem operacional.
A procura supera a oferta em zonas prime, o que permite a senhorios impor cláusulas restritivas, garantias e revisões agressivas.
Em 2026, proliferam modelos híbridos, como rendas com componente variável indexada a faturação — vantajosos em setores sazonais, mas arriscados sem uma estrutura de governance clara.
A não transmissibilidade de licenças pode anular o racional económico do trespasse. A conformidade passou a ser elemento central do valuation.
Conclusão: em 2026, arrendamento e licenças tornam-se o eixo central do preço e do risco — e não apenas um requisito administrativo.
A cessão da posição contratual só é válida se prevista no contrato ou autorizada pelo senhorio. Em 2026, observam-se três tendências:
Resposta mais lenta e criteriosa por parte dos proprietários.
Pedidos de comprovação financeira do comprador, quase como uma análise de risco de crédito.
Maior propensão a recusar operações em setores de rotatividade elevada.
Estratégia recomendada: incluir no contrato de trespasse uma cláusula suspensiva que condicione o fecho à aprovação formal do senhorio.
Em setores como restauração e retalho de rua, tornou-se comum:
Cauções equivalentes a vários meses de renda
Garantias bancárias
Fiadores pessoais
Adiantamentos
Estas exigências impactam diretamente a necessidade de capital e o retorno sobre o investimento.
Contratos recentes incorporam:
Indexação à inflação
Revisões extraordinárias em caso de transmissão
Break clauses com penalizações
Em 2026, qualquer modelo económico deve incluir stress tests à renda sobre EBITDA e análise de ponto de equilíbrio pós-transmissão.
Sem a transferência correta das licenças, o trespasse pode perder valor total. As questões críticas incluem:
Licença de utilização compatível com a atividade
Autorizações sanitárias e de segurança alimentar
Licenças de esplanada, ruído ou horário
Segurança contra incêndio
Higiene e segurança no trabalho
A ausência de conformidade pode implicar encerramento temporário, multas e necessidade de obras.
A transmissão de estabelecimento acarreta, regra geral, a transferência automática dos contratos de trabalho. Em 2026, com custos laborais crescentes e legislação mais rígida, este ponto influencia:
Custo futuro da operação
Risco de litígios
Obrigações indemnizatórias
Estratégia de retenção
A avaliação do quadro de pessoal deve ser tratada como parte do valuation.
Mitigação:
Cláusulas suspensivas
Cartas de compromisso do senhorio
Opções de renovação contratual negociadas previamente
Mitigação:
Stress testing a vários cenários
Ajuste do preço de trespasse
Estruturação de earn-outs ligados à performance
Mitigação:
Renegociação antes do fecho
Alinhamento entre tempo restante e amortização do CAPEX
Direito de preferência em eventual renovação
Mitigação:
Auditoria técnica com peritos
Orçamento fechado e cronograma
Avaliação de riscos estruturais e acústicos
Verificação de acessibilidade e normas urbanísticas
Mitigação:
Planeamento fiscal antecipado
Alocação estratégica de ativos e intangíveis
Otimização de IVA, Imposto do Selo e mais-valias
Em 2026, erros fiscais podem reduzir significativamente o ganho líquido.
Uma due diligence robusta deve abranger:
Contrato de arrendamento e transmissibilidade
Histórico de revisões e litígios
Licenças e conformidade
Situação laboral e passivos potenciais
Estado técnico do imóvel
Rácio custo de ocupação / EBITDA
Obrigações ambientais e ESG
Seguro obrigatório do espaço
A criação de uma data room digital estruturada encurta negociações e aumenta a confiança do comprador e do senhorio.
Negócios sem mecanismos digitais de gestão, reservas, CRM ou pagamentos têm menor valuation e maior risco operacional.
Empresas não conformes com normas ambientais, segurança ou acessibilidade tendem a ter maior custo futuro e menor apetência de investidores.
Com taxas de juro ainda elevadas, operações mal parametrizadas tornam-se financeiramente inviáveis, mesmo com bom faturamento.
Negócios otimizados com automação e dados tendem a apresentar margens mais estáveis e valuation superior.
O trespasse com arrendamento em 2026 pode ser uma estratégia poderosa para acelerar entrada no mercado, reduzir riscos de arranque e captar localização e clientela consolidadas. Contudo, o sucesso depende de uma gestão rigorosa do elemento mais sensível da operação: o arrendamento comercial.
Sem consentimento do senhorio, análise aprofundada das licenças, stress tests financeiros, avaliação de passivos laborais e planeamento fiscal, o trespasse deixa de ser uma oportunidade e transforma-se num passivo potencial.
A abordagem vencedora em 2026 é técnica, multidisciplinar e orientada à mitigação de risco.
Empresas e investidores bem assessorados preservam valor, evitam surpresas e maximizam retorno.
Se pretende avaliar ou vender um estabelecimento em 2026, uma consultoria especializada em M&A e trespasses pode estruturar o processo, proteger o investimento e negociar as condições ideais com todas as partes envolvidas.